Divórcio: amor que não precisa acabar, apenas se transformar |

Preencha o formulário abaixo para que um de nossos advogados entre em contato.








pensao-alimenticia

Divórcio: amor que não precisa acabar, apenas se transformar

Obra campeã de indicações ao Globo de Ouro de 2020, tendo concorrido a seis categorias e vencido em uma delas, o filme norte-americano “História de um Casamento” comoveu crítica e público, talvez por levar às telas uma narrativa que causa identificação a um sem-número de pessoas que foram afetadas por divórcios litigiosos – e aqui estamos falando dos casais que enfrentam uma separação conturbada e também dos filhos, dos familiares e dos amigos que também são envolvidos em tais conflitos.

No filme, Nicole, interpretada por Scarlett Johansson, abdica de seus próprios projetos para investir na promissora carreira do marido, Charlie, vivido por Adam Driver. Com o casamento em crise, ela busca reaver a própria autonomia. Porém, o que começa como um término amistoso, apesar de diversas intercorrências, termina em um processo belicoso.

Em um esforço para evitar que mais pessoas passem por situações como as que são representadas na obra, diversas iniciativas têm criado ferramentas para estimular a adoção de métodos consensuais de solução de conflitos. Recentemente, por exemplo, o Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejusc) de Belo Horizonte realizou uma oficina com o tema “Divórcio com amor”. A dinâmica, conduzida pelo juiz Clayton Rosa de Resende, foi aberta à participação de pessoas que são parte de um processo em andamento, àquelas que têm um conflito, mas que ainda não iniciaram o processo, aos profissionais do direito e a toda a comunidade jurídica em geral.

Advogada especialista em direito de família e sucessões, Thais Câmara detalha que, conceitualmente, a diferença entre o divórcio consensual e o litigioso é que, enquanto no primeiro as partes chegam a um acordo comum, no segundo todos os pontos em discussão ou alguns deles passam a ser disputados. “Hoje, temos o Cejusc, que se propõe a fazer mediações de conflitos familiares, incluindo aqueles provenientes de uma separação. E, a partir dos resultados obtidos por esse trabalho, é possível que o casal chegue a um consenso e, posteriormente, um acordo seja homologado judicialmente”, diz.

Thais sublinha que há uma acentuada tendência de as partes buscarem resolver suas pendências de forma mais rápida e eficaz – e, portanto, evitando o desgaste de um litígio. “É uma iniciativa que deve partir também dos advogados, que devem ajudar as partes a resolverem tudo de forma mais amigável. Afinal, nesse caso, todos ganham, incluindo as pessoas, que podem seguir com suas vidas, e o sistema judicial, que fica desobstruído”, reforça, lembrando que ser um pacificador social é papel dos profissionais do direito.

Para o hipnoterapeuta Thiago Porto, especialista em recuperação de casais, o divórcio deve, idealmente, ser racional e consciente, e não emocional. “Passar por um término amistoso e maduro faz com que a convivência possa continuar existindo, mesmo que distante. Além disso, nessas circunstâncias, são menores as chances de traumas”, garante. Já uma separação litigiosa pode repercutir em experiências traumáticas, que podem ser um empecilho a futuros relacionamentos. “E, se há filhos, é muito importante que a criança não seja intoxicada pelos dilemas dos pais. Uma condução madura, além de preservar a família, serve de bom exemplo”, sustenta Porto.

Afeto preservado 

Exceto por esse desfecho tumultuado, a trama de “História de um Casamento” guarda semelhança com a experiência de Naiane e Diogo (eles optaram por serem citados apenas pelo primeiro nome). “Nós nos conhecemos há 15 anos”, lembra a hoje empresária, citando que, a princípio, viveram uma relação descompromissada, até que iniciaram um namoro, que logo virou casamento. A cerimônia de troca de alianças aconteceu em 2014. “Ficamos juntos até dezembro de 2019”, lembra.

A certa altura, Diogo recebeu uma oferta de trabalho tentadora, então o casal deixou Minas Gerais para viver no Maranhão. “Fomos grandes amigos durante toda essa jornada doida de dividir a vida. Mas chegou o momento em que éramos somente amigos, morando em uma cidade distante de tudo e de todos, onde ele se realizava. Mas sentia a necessidade de crescer também e sentia falta de ser mais do que a amiga”, pontua.

Naiane acredita que qualquer processo de separação, independentemente da forma como acontece, será doloroso em alguma medida. “O fato de não querer mais um relacionamento e, ao mesmo tempo, não querer magoar a outra pessoa pesa muito. Eu sabia exatamente o que eu queria, mas algumas coisas iam me fazer muita falta”, observa, emendando que, nesses mais de 15 anos de relação, nem nos piores momentos desejou mal ao parceiro. “E eu continuo desejando que a vida dele seja incrível e que ele seja inteiramente feliz e realizado. Acho que é isso. O amor não acaba, ele muda e se transforma em outra forma de amar”, descreve.

Momento de transição

Para a psicóloga clínica Leni Oliveira, coordenadora do núcleo de relacionamento e de casal do Núcleo de Psicologia Seu Lugar, exemplos como o de Naiane e Diogo tendem a se tornar mais comuns.

“Esse comportamento é reflexo de uma mudança estrutural da sociedade, que passa por uma fase de transição”, examina, fazendo menção à revolução em termos de costumes iniciada com o surgimento da pílula anticoncepcional, em 1960. “Hoje, a maior aceitação e popularização das relações não formalizadas ampliaram a força de um entendimento do casamento como a busca de uma parceria, mais do que a busca por complementaridade”, diz, acrescentando que esse fenômeno repercute na forma como o divórcio passou a ser interpretado.

“Se, antes, prevalecia aquele entendimento do casamento como forma de se completar, em que preciso do outro para me sentir inteiro, hoje, começa a se tornar mais comum essa visão do estabelecimento de uma parceria entre duas pessoas, que estão juntas, mas que preservam sua individualidade”, observa. “Portanto, em vez de o término significar uma sensação de perder um pedaço de si, fica mais fácil que o outro continue sendo visto como o outro que ele é. E, assim, a parceria pode continuar existindo, mesmo que não mais em um contexto afetivo-sexual”, argumenta.

Fonte:https://www.otempo.com.br/interessa/divorcio-amor-que-nao-precisa-acabar-apenas-se-transformar-1.2496389